ilustração & street art

Entrevista: MAFALDA JESUS

BRUNO

CASANOVA

Viajou, participou em diferentes projetos, exposições e explorou diversas técnicas e conceitos, sem nunca ficar preso a um único estilo. Achámos que a paixão do Bruno pela arte tinha de ser partilhada.

Fiz questão que fizesses parte deste projeto, porque desde sempre que acompanho e admiro o teu trabalho. Sempre lutaste pelo que querias e nunca baixaste a caneta. Viajaste, participaste em diferentes projetos, exposições e exploraste diversas técnicas e conceitos, sem nunca ficares preso a um único estilo. Considero-te das pessoas mais criativas que conheço, as tuas obras são inconfundíveis e acho que a tua paixão pela arte tem de ser partilhada.

 

1) MELANCIA: Conta-nos um pouco do teu percurso. Como nasceu a tua paixão por esta área e quando decidiste que querias estudar e entrar no mundo da arte?
BRUNO: 
Sempre estive num ambiente artístico, graças aos gostos dos meus pais. Desde pequeno que ia a exposições, ao teatro e assim... Mas o que realmente me fez decidir continuar os estudos no mundo da arte foi o facto de o meu pai ser artista plástico. Uns dizem que “está no sangue”, mas eu vejo mais como sendo o meu meio ambiente desde criança, como das vezes em que via o meu pai a fazer esculturas enormes ou eu ter de sair do ateliê porque ele ia usar vernizes com aquele cheiro intenso... Ele até dizia que, se calhar, um dia eu ia ficar habituado e acabaria por usá-los também.

2) M: Como te descreverias enquanto artista?
B: Depois deste segundo ano de faculdade, mudou muita coisa. Antes de vir estudar fora [em Inglaterra] via-me como um pintor, ou desenhista. Mas passei a praticar desenho mais por hobby, e a investir em Artes Performativas. Estive muito perto de estudar Teatro em vez de Artes no secundário, então agora estou a misturar as duas para expandir mais o meu leque

artístico.

3) M: O que te levou a sair do país e ir estudar para Inglaterra? Que mais-valias sentes que isso te trouxe a nível artístico?

B: Tive um enorme apoio da minha alma gémea e da sua família. Houve a oportunidade de estudar com ela durante a licenciatura e assim vim com um sorriso de orelha a orelha e uma gratidão diária; uma benção. Desde então, a minha noção de Arte e de como isto funciona em Inglaterra crescia consoante os anos. Agora estou no último ano e sinto-me com uma confiança que certamente não teria em Portugal. Estando perto de Londres e haver dias em que a turma toda vai a exposições dá-me motivação, há trabalhos de arrepiar que certamente vão ser muito mais vistos numa galeria na capital inglesa do que se estivessem em Portugal inteiro, e não é uma questão de número populacional; é porque aqui o senso comum inclui passar por uma galeria a caminho do café, porque pela montra dá para ver que há novos trabalhos. Aqui há um núcleo, um hot-spot, é o sítio para se estar.

4) M: Quando acabares os estudos, pretendes ficar em Inglaterra ou voltar para Portugal e desenvolver aqui tudo o que aprendeste?

B: Ficar, sem dúvida. Toda a gente diz me “não voltes para este país” como se Portugal fosse anti-arte. Os portugueses estão uns anos atrás, mas é visível que as gerações mais jovens estão a fazer um bom trabalho a abrir mais concursos e oportunidades para artistas que estão a começar. Claro que Portugal vai ter um grande impacto no meu trabalho, visto que toda esta informação que eu recolho neste país é de um estrangeiro. E eu adoro isto, há vezes que parece que estou num filme. Então vou mostrando as minhas experiências e sketches em trabalhos.

5) M: No teu trabalho é recorrente a presença do camaleão. Porquê?

B: Quando eu comecei a estudar artes na Escola António Arroio, em Lisboa, tive uma fase em que via documentários sobre animais quase todos os dias. Sempre tive atração pela beleza dos répteis, mas os camaleões sempre me fascinaram pela maneira como usam camuflagem como auto-defesa. E sendo uma altura complicada na adolescência, apercebi-me do quanto eu me camuflava consoante as diferentes pessoas ao meu redor. Comecei a pesquisar mais sobre os animais e répteis em geral, então a paixão aumentou. Tornou-se bastante fácil desenhá-los, então, pouco a pouco, entram com frequência em tudo; talvez isto tudo seja comodismo.

6) M: Também representas frequentemente o espaço que te rodeia. Sentes que fica como uma recordação daquele momento ou simplesmente gostas de testar e aperfeiçoar a tua capacidade de desenho?

B: Antes eu só o fazia por uma questão de registo, para, ao fim de meses, olhar para trás no diário gráfico e ver onde tinha ido e como desenhava. Nunca foi muito por técnica até porque, facilmente, me irrito com trabalho meu, por ser perfeccionista; há sempre alguma coisa que está maior ou torta do que aquilo que devia. A melhor parte é quando visito os sítios de novo, passo sempre pelo local exacto onde estive, se houver possibilidade; já houve alguns que sofreram obras, há bancos em jardins que já não existem... Também gosto de ver a reacção dos outros quando reconhecem os lugares, dá para ver como o mundo é pequeno, até porque aquelas pessoas, muito provavelmente, nunca tinham visto um desenho daquele local. Claro que há lugares ou paisagens que são mesmo mainstream de desenhar, mas, em geral, é mesmo por uma questão de beleza que é justificável.

7) M: Além disto, uma das tuas imagens de marca é o auto-retrato, que é apresentado sempre de formas e técnicas distintas. É um desafio desenharmo-nos a nós próprios?

B: Acho que não... Acho que talvez até seja mais fácil do que desenhar outra pessoa. Eu faço-o mesmo por uma questão de alimentar o meu ego, gosto de me ver em desenhos. Mas depois de já ser usual incluir as minhas feições em trabalhos, comecei a reparar que, ao desenhar outra pessoa, inconscientemente, me desenhava. Isto foi estranho ao início mas depois apercebi-me que dá me mesmo jeito usar-me como base, pois, por já me ter desenhado tanta vez, nunca me vou esquecer como é. É parecido com os camaleões, por já ter feito tantos, já sei como representá-los, de diferentes ângulos e feições, mas com a mesma base.

8) M: Onde gostarias de estar daqui a uns anos e que objetivos gostarias de atingir?

B: Isto é aquele tipo de perguntas que faço todos os dias a mim mesmo, e todas as noites muda. Mas por onde eu realmente vou começar é por mudar-me para Londres, onde posso ser um “London based artist”, enquanto me concentro mais no tipo de trabalho em que quero investir e no tipo de público. Ser um “London based artist” é basicamente ter uma rampa de

lançamento numa boa localização, onde há mais possibilidades e oportunidades para me destacar. Como o meu trabalho vai variando, não sei ao certo, mas como atividade principal, vou fazer Performance Art... E o objetivo seria fazer com que Portugal percebesse melhor esta coisa de “O que é arte? E o que não é?”, usando esta nova categoria de arte que ainda não

chegou bem ao nosso país...

9) M: Que artistas tens como referência e de que forma te influenciam?

B: A Helena Almeida é uma paixão recente, foi só quando me interessei mais por Performance que comecei a olhar para Fotografia de uma maneira diferente. É uma inspiração para mim, por ter performances conhecidas e sobre as quais os professores aqui em Inglaterra me ensinam. Gostava de ver mais artistas portugueses a ser mencionados pelo mundo fora, já chega de falar só de jogadores de futebol! Mas a maior influência é a Marina Abramovich, ela é “de outro mundo”. Ela trouxe uma arte provocadora, numa de fazer muita gente “abrir a pestana”. Mas a minha maior influência é o meu pai, desde pequeno. Sempre me encorajou, sempre foi muito crítico. E quando precisava de conselhos, era a ele que recorria. Sempre tirou tempo da sua arte para me ajudar na minha. Talvez se o meu pai tivesse espalhado o seu trabalho pelo mundo fora, fossem da sua autoria alguns dos exemplos que os professores usam nas aulas... Mas agora vou ser eu a tentar e tenho o apoio total da parte dele. Eu vou ter uma exposição a solo este Dezembro e ele está a dar-me uma ajuda enorme, porque isto de fazer exposições sozinho é algo novo para mim, estou habituado a fazer em grupo.

10) M: Elege um trabalho teu e explica-nos o que significa para ti.

B: O “Bed.Lion”, o placard que ganhou o primeiro prémio no concurso “Drive in Art” há dois anos. Recebi a notícia pelo meu pai quando já estava em Inglaterra, com uma foto dele a segurar o cheque do prémio. O sorriso dele mostrou-me, visualmente, o orgulho que sei que tem em mim, e de estar a representar-me enquanto eu estou em Inglaterra a estudar Artes. Ajudou-me a transformar o trabalho com o qual concorri, numa obra mais tridimensional, ao juntar ramos a sair da pintura. Esse pequeno detalhe fez a diferença toda, e acredito que foi isso que me fez ganhar. Aliás, que fez com que ganhássemos o concurso.

11) M: Deixa um recado para a MELANCIA mag e para os seus leitores!

B: Preparem-se, que a Performance Art vai invadir Portugal como ninguém está à espera. E, de certo, que vai entrar em grande, tocando pontos que o nosso país precisa de ajeitar... Como o fim das touradas, por exemplo. É um assunto que precisa do apoio artístico, de manifestações... E isso faz uma grande diferença... Mas talvez uma obra de arte possa ser a última gota de que Portugal precisa para ver que o nosso país anda ceguinho em muita coisa porque está concentrado noutras desnecessárias.

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