ESCRITA

Entrevista: JULIANA LIMA

FELIPE

VALÉRIO

Felipe Valério brinca com as palavras e por isso escreve textos engraçados, com sentidos múltiplos e cheios de significados. Este brasileiro de 37 anos, nascido na “ilha” de Florianópolis (Sul do Brasil), vive na “ilha” de São Paulo, formou-se em publicidade e como ele mesmo diz, em outras coisas de nome comprido. É escritor e Diretor de Identidade Verbal da Interbrand São Paulo e amigo de velha data! Nesta entrevista exclusiva fala-nos dos teus projetos pessoais, das suas conquistas e, claro, não deixa de mencionar os suas maiores fortalezas: a sua esposa Vanvan, a fotografa Vanessa Atalla, os seus filhos Nina e Leo, o casal de gémeos de quase 1 aninho de idade, e Kito, um bulldog francês cheio de histórias.

1) MELANCIA: Quem é Felipe Valério?
FELIPE: 
Alguém que não dorme sem escrever, que gosta de ler em voz alta e com quem a vida foi muito generosa. É filho de um português sem sotaque, pai das poesias Nina e Leo, companheiro de alma da fotógrafa Vanessa Atalla e melhor amigo do Kito. Acredita com todas as forças que as palavras ainda vão salvar o mundo.

2) M: Quando percebeste o teu gosto e aptidão pela escrita?
F: Sempre acreditei que quem escreve quer se aproximar - de si mesmo, dos outros e da vida. Colocar uma palavra no papel é um gesto de coragem. Dividir essa palavra com os outros é um gesto mais corajoso ainda. Talvez eu estivesse tentando colocar um pouco disso em prática, mesmo sem muita consciência, quando criança. Falo isso porque desde pequeno enxergava a escrita como lazer. Para mim, brincar na rua ou brincar de rimar tinham o mesmo impulso, a mesma alegria, o mesmo prazer. Essa era a minha escolha, a minha verdade. Quanto mais a vida me empurrava, mais eu levava minha linguagem junto. As rimas viravam diários, que viravam poeminhas de amor, que viravam poeminhas de amor não correspondido, que viravam a música-que-ninguém-nuncaouviu, que viravam textos sobre a falta de vontade de escrever, que viravam uma imperfeita tradução de tudo o que eu queria dizer. E essa sempre foi a boa notícia.

3) M: Queremos saber mais sobre o teu projeto “Foi Verdade”. Conta-nos como tudo começou. 

F: O “Foi Verdade” nasceu de um destes impulsos da vida. Sempre fui apaixonado pela escrita curta, com pouquíssimas palavras, mas que tivesse energia suficiente para mexer com as pessoas. Também tenho o hábito de ter sempre cadernos por perto, para guardar tudo o que penso. Um dia percebi que algumas dessas frases se encaixavam em um mesmo conceito, que provocava a ideia de um amor que foi verdadeiro - mas só enquanto foi. O próprio nome era uma provocação. “FV” funcionaria para “Foi Verdade” e Felipe Valério - como se eu pudesse brincar com a origem dessa voz. Já tinha o conceito, mas precisava de definir a plataforma. E foi aí que o perfil do Instagram nasceu. Lá parecia ser o local perfeito para um perfil assim, com frases rápidas, sem muita explicação, mas que pudessem transportar as pessoas para um momento ou situação diferentes. O perfil foi crescendo e alguns meses depois, a boa notícia: fui convidado pela Natura para escrever as frases das embalagens da nova linha Natura Humor. O tipo de trabalho que você faz sorrindo.

4) M: Quais as tuas principais inspirações e referências? 

F: Sempre estive perto da escrita que brinca com as palavras, que provoca novos usos para a linguagem. Guimarães Rosa e suas palavras criadas (como não se apaixonar por “suspirância”?), Julio Cortázar e suas instruções para subir escadas, Ariano Suassuna e sua sempre viva voz nordestina, Augusto de Campos e sua beleza concreta, Dan Perjovschi e sua tão atual poesia visual, além do sempre presente escritor Marcelino Freire, alguém que deu espaço e ajudou a levantar a voz de muitos novos escritores brasileiros. Sem contar as referências que estão na rua, nos inúmeros saraus de poesia (Sarau da Cooperifa, Menor Slam do Mundo, Sarau do Burro são apenas alguns), nas editoras independentes cheias de força e coragem e na empolgante geração de escritores que decidiram contruir seus próprios meios de circulação, de divulgação.

5) M: Quando começaste a criar com as palavras, imaginavas que escreverias livros? Como te sentes hoje com quatro obras publicadas e mais outras participações? 

F: Nunca imaginei até acontecer. E sempre achei curiosa a relação das pessoas com o livro. Muita gente o enxerga como um objeto solene, a quem quase se deve o respeito. Entro em desespero quando encontro alguém que escreve bem, mas que se lamenta ou se sente “menos escritor” por não ter um livro publicado. Produzir, provocar e explorar uma linguagem vêm em primeiro lugar. É daí que nasce a voz. Acho incrível o tanto de gente que consegue colocar sua mensagem na rua por meio de outros suportes - instalações, lambe-lambe [poster], teatro de rua, zines [publicações produzidas por fãs ou pelos próprios artistas, geralmente de forma artesanal, em pequenas quantidades, que aproximam o público de forma íntima com a arte], saraus. Se isso não é escrever, o que é? Deve ser por isso que, durante muito tempo, chamei meus livros de “experimentos”. Por mais definitivos que fossem no momento do lançamento, eram apenas mais um passo na descoberta da minha voz. Foi testando diferentes formatos e técnicas que consegui me aproximar da minha linguagem. Por exemplo: estou escrevendo agora. “O Maravilhoso Mundo de Nina e Leo”, um livro lindo que conta os primeiros 76 dias dos meus filhos na Unidade de Traquinagem Intensiva - um lugar onde tudo é divertido e ninguém precisa de ter medo. Encarar temas assim de frente é o que movimenta a minha escrita.

6) M: Como consegues conciliar todas as tuas responsabilidades? O trabalho fixo como diretor de área numa empresa internacional, marido, pai de gémeos, dono de um cão e MAIS os teus projetos pessoais? 

F: Essa pergunta sempre me assustou (risos). Até porque pode parecer que sou mais disciplinado do que realmente sou. Mas acho que todas essas coisas se encaixam porque nascem de uma mesma vontade, de uma mesma conversa. Para mim, não existe “hora de escrever”. Todo tempo é um tempo de produção, de movimento. Brincar com meus filhos ajuda-me a pensar em novos temas, a descobrir conexões mais espontâneas. Trabalhar na Interbrand ajuda-me a reconhecer o valor da linguagem em um mundo em que as mensagens são tão fragmentadas. Ter a Vanessa sempre por perto ajuda-me a perceber que tudo tem sua poesia. E escrever os meus projetos ajuda-me a mergulhar nos meus impulsos. Esse processo precisa de ser encarado como um organismo vivo.

7) M: O que é essencial no teu dia a dia? 

F: Dar um cheiro no pescoço da Nina e do Leo, trocar olhares com a VanVan e escrever - nem que seja apenas uma palavra.

8) M: E o teu lema, qual é? 

F: Meu lema? Não tema.

9) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

F: Produzam, produzam, produzam. Experimentem, experimentem, experimentem. E multipliquem tudo o que aprenderam.

www.instagram.com/foiverdade/

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