ENTREVISTA: juliana lima

Fotografias: vários

GUSTAVO

ÁVILA

Gustavo Ávila, escritor brasileiro de 33 anos, nasceu em São José dos Campos, interior de São Paulo, e atualmente vive em Florianópolis, Santa Catarina. Publicitário de formação, conta-nos o seu percurso, as suas dúvidas, os seus anseios e também como a sua paixão pela literatura o fez decidir o seu caminho. Sorria e não perca esta entrevista cheia de emoção com o lançamento do seu livro “Sorriso da Hiena”.

1) MELANCIA: Quem é o Gustavo Ávila?
GUSTAVO: Um “cara” persistente. Que decidiu, enfim, colocar o sonho à frente das obrigações. Redator publicitário que aprendeu a escrever dentro de agências e lendo escritores melhores do que ele. Que abandonou a faculdade de publicidade. Sou um tranquilo, gosto de fazer as coisas ao meu jeito, mas sou “aberto” a mudar de ideias. Odeio esperar. Odeio as frases “se tiver de acontecer, vai acontecer” e “tudo tem o seu tempo”. Sou um “cara” normal.

2) M: Quando percebestes o teu gosto e aptidão pela escrita?
G: Na verdade, quem percebeu isso foi um professor que tive. O Zé Luiz, que, aliás, foi meu primeiro chefe. Ele dava aulas na faculdade em que estudei. Houve uma seleção na agência de publicidade dele e fui lá tentar o meu primeiro estágio. Eu queria ser diretor de arte. Sinceramente, não sabia muito bem como funcionava o trabalho de criação dentro de uma agência, não tinha essa noção de dupla, de diretor de arte e redator, então pensava que quem criava era exclusivamente quem trabalhava na parte gráfica. E eu queria criar. Era isso que eu queria. Ele viu o meu portfolio e, como me conhecia, conseguiu ver algo que eu ainda não enxergava. Ele disse que me contrataria, mas como redator. Eu queria um emprego e aceitei. Foi assim que comecei a trabalhar com a escrita. “Atiraram-me” nesse mundo. E isso é uma coisa muito “bacana” que eu gosto sempre de falar com quem converso, a diferença que um bom professor faz na vida de alguém. Um profissional que a que a sociedade precisa de dar mais valor. São muitas vezes os professores que nos colocam no caminho certo. Um bom professor é isso, é um guia, e a gente, o mundo, precisa de reconhecer melhor a importância que eles têm.

3) M: De redator a escritor de livros. Fala-nos sobre o teu percurso profissional.

G: Eu comecei como estagiário numa agência no interior de São Paulo. De lá mudei para Florianópolis, com 20 anos. Queria morar na praia. E queria sair da casa dos meus pais, ter o meu canto. Fiquei em Florianópolis pouco mais de três anos, trabalhando em agências, quando recebi uma proposta para trabalhar em São Paulo, capital. Mas a ideia do primeiro livro, “O sorriso da Hiena”, eu tive quando ainda morava em Floripa. Levei-a comigo na bagagem, mas ficou engavetada. Fui tendo ideias de histórias, mas nunca as colocava no papel. Agências de publicidade consomem tempo demais. Chegou um momento que eu estava meio dividido entre me dedicar para valer à publicidade, tentar ganhar prémios, ou fazer um trabalho bem feito mas dedicar o meu esforço real à literatura. Eu escolhi a segunda. Sempre gostei de publicidade, mas aquele mundinho estava a cansar-me, assim como vi (e vejo) tantos amigos de profissão na mesma circunstância. Então atirei-me de cabeça a dedicar-me aos livros. Escrevia quando chegava em casa, muitas vezes bem tarde, e passava a madrugada a fazê-lo. Tirei umas férias e fui para o sítio de um amigo para me fechar lá dentro, sem internet, sem vizinhos, sem ninguém. Lá eu consegui escrever bastante. Mas nunca deu realmente para sair da publicidade e me dedicar exclusivamente à literatura. É um plano B que demora a dar retorno financeiro, então ainda trabalho com os dois. Eu voltei a morar em Florianópolis e hoje estou há alguns meses focado apenas no segundo livro. Mas faço alguns trabalhos freelancer em publicidade para pagar as contas. Infelizmente essa é a realidade da grande maioria dos escritores brasileiros. É difícil viver de livros. Mas a gente ama isso. Vale a pena cada esforço a mais.

4) M: Como crias as histórias das teus livros? 

G: Normalmente, a ideia surge de duas maneiras: sobre o que eu quero falar? Por exemplo, quero falar sobre como surge a maldade em nós. Aí eu fico matutando nalguma história para falar sobre essa questão. A outra possibilidade é quando vem a ideia de um enredo, de uma trama na cabeça. Como o conto “Pá de Cal” que eu escrevi. Primeiro veio a ideia de algo que eu não posso falar (para não estragar a história) que apagou a memória das pessoas que estão dentro de uma misteriosa vila. Então eu fiquei pensando que assuntos, que temas eu poderia abordar nessa trama. Então trabalhei coisas como a felicidade, como o nosso desejo de tentar controlar tudo no mundo, controlar a natureza, essa busca quase doentia para evitar a dor, evitar a tristeza, coisas que são importantes para todos nós, que fazem parte da nossa vida para crescermos como um ser mais evoluído. Então, normalmente surge dessas duas maneiras. Quando começo a escrever eu não gosto de ir escrevendo. Papel em branco e vai. Há autores que o fazem desta forma, sentam-se e vão escrevendo, deixando a história levá-los. Outros fazem como eu faço. Eu preciso de um pouco mais de planeamento. Eu gosto de saber como a história vai terminar, acho isso bem importante para me guiar durante a escrita. Normalmente, eu tenho o começo, o final, e divido a história no meio disso, colocando todos os acontecimentos importantes dela. Quase como aquela brincadeira de traçar uma linha em pontos numerados e no final temos o desenho. Eu preciso definir esses pontos numerados, se não, no decorrer da história, pode acontecer não saber para onde ir e ficar “empacado”, não sair do lugar. Mas, é importante dizer que, mesmo sabendo para onde a história vai e mesmo tendo a maioria dos acontecimentos na cabeça, no decorrer da escrita muita coisa muda. E isso eu acho muito empolgante, porque a história realmente ganha vida própria, ela foge do seu controlo. No livro que estou a escrever agora, eu já tinha redigido mais de metade e ficou claro que o assassino deveria ser uma outra personagem. É uma mudança muito radical, mas no decorrer da escrita não houve como fugir: quem tem de levar a cabo o que está a ser feito é outra pessoa. Essa mudança reforçaria a mensagem que eu quero passar. E quando isso acontece, temos de obedecer. A história é que manda no autor e não o contrário.

5) M: Quais as tuas inspirações e referências? 

G: Eu leio autores muito diversos. Gosto, principalmente, daqueles que contam histórias sobre a condição dos seres humanos. Que falam de nós. Um dos meus livros preferidos é “O médico e o monstro”, do Robert Louis Stevenson. É uma história interessante pela trama, mas vai muito além disso, é um debate profundo sobre o ser humano. Gosto de livros que unem essas duas coisas: uma trama envolvente com uma mensagem mais profunda. Ultimamente, tenho lido muito Mia Couto, um autor de Moçambique. As histórias dele são tão vivas e sensíveis e bonitas, cheias do mundo africano, com suas crenças. São histórias ricas e sensíveis. Humanas. Essa é minha maior inspiração. Tentar ser humano. Mostrar-nos nas histórias.

6) M: Como te sentiste ao lançar o teu primeiro livro? 

G: Primeiro, eu lancei de forma independente, já que não tinha conseguido uma editora. Então, quando as caixas de livros chegaram a minha casa foi uma mistura de coisas. Orgulho de ter dado aquele passo. Empolgação. Medo, porque agora eu ia realmente dividir aquela história com outras pessoas, então como seria esse retorno? Será que vão gostar? Será que vão achar uma merda. Será que vão ler? Medo... porque eu peguei boa parte do meu dinheiro para investir nisso. É uma coisa maluca, porque é uma alegria enorme, junto com um frio na barriga que nunca passa. É uma sensação incrível. Foi como apaixonar-me, ficamos meio perdidos, mas no fundo sabemos o que fazer, e queremos fazer, queremos correr o risco. E agora com uma grande editora por trás, acrescenta a isto tudo uma dose enorme de ansiedade. Porque serão muito mais exemplares, o livro vai para livrarias mesmo, mais pessoas terão acesso. É uma loucura. A sensação de estar a realizar algo que realmente queremos é maravilhosa.

7) M: E agora, acabaste de anunciar o último lançamento “O Sorriso da Hiena” com direitos de adaptação da TV Globo. Como te sentes com este sucesso todo? 

G: Imaginar que essa história pode um dia virar um filme ou uma série na maior emissora de TV do Brasil é empolgante demais. E, além disso, ver que grandes profissionais também estão a acreditar na tua história, isso é um incentivo enorme. Ver que as pessoas estão interessadas, envolvidas, querem fazer parte disto, é incrível.

8) M: Qual o teu lema? 

G: Cuidar da minha vida, não fazer mal a ninguém e, sempre que possível, ajudar os outros.

9) M: Tens outros projetos em vista? Quais os próximos passos? 

G: Estou a escrever o segundo livro, que terá o detetive Artur, de “O Sorriso da Hiena”, mas as duas histórias não terão ligação. Na verdade, passa-se alguns anos antes de “O sorriso da hiena”. Eu já tinha essa trama na cabeça, enquanto escrevia o primeiro, agora vou colocá-la no mundo. Tenho alguns contos também que quero passar para o papel. Um já está disponível na Amazon, chama-se: “Pá de Cal”. E um terceiro livro que estou muito empolgado e ansioso para começar. Diferente dos dois primeiros. Não será um romance policial, será mais uma história de jornada, de um viajante à procura de algo. Terá uma investigação, mas será quase uma investigação arqueológica e irá passar-se na África e no Brasil, e vai desenterrar um pouco da história da humanidade, misturando factos reais com ficção. Vai falar muito sobre o tempo, a morte, a vida. Quero amadurecer bastante a forma como irei contar essa história porque tenho um carinho especial com ela.

10) M: Deixa um recado para a melancia mag e os seus leitores. 

G: Quero agradecer o convite para essa entrevista. O espaço para falar sobre meu trabalho nessa revista linda. Para os leitores da MELANCIA, espero que tenham gostado desta conversa, agradeço a paciência para algumas respostas meio longas, e espero que logo tenham a chance de ler “O Sorriso da Hiena” e outras histórias minhas. Será um prazer enorme receber-vos no meu mundo também. São todos muito bem-vindos. Desejo tudo de melhor e mais bonito para cada um. Um grande beijo e muitas histórias para vocês.

gustavoavilaescritor.com

espreita o artigo na revista

CONTACTos

  • ig
  • fb
  • yt

MELANCIA MAG 2018 © ALL RIGHTS RESERVED

Melancia_Icon.png