Entrevista: MAFALDA JESUS

ILUSTRAÇÕES: daniel moreno

TAPE

PROJECT

Daniel Moreno, publicitário e ilustrador brasileiro de 35 anos, encontrou nos projetos pessoais a liberdade para criar. Entre estes destacamos o “Tape Project”, que está na capa desta edição. Nele, une a simplicidade do material, ou seja da fita adesiva, com a complexidade e autenticidade da construção de desenhos tão expressivos. Está aí a essência e a graça das suas obras. Nesta entrevista, Daniel revela-nos um pouco do seu processo criativo, e fala-nos dos seus desafios e aventuras de levar esta ideia tão incrível para o mundo. Enjoy.

1) MELANCIA: Quem é o Daniel Moreno? 
DANIEL: 
Um Potiguar [nascido no estado do Rio Grande do Norte, Brasil], radicado em São Paulo, que fala bem baixinho.

2) M: Sempre trabalhaste na área da criação publicitária, em grandes agências no Brasil e não só. Diz-nos o que te motivou a criar um projecto pessoal artístico paralelamente a tua profissão.
D: Ser ilustrador nessa área de publicidade tem a vantagem de estar a todo momento em contacto com diferentes pessoas, criativas, que te trazem a cada trabalho novas ideias e referências. Estão-nos sempre a ser apresentados a novos artistas, estilos ou mesmo revendo os mais clássicos. Isso, mais o ritmo frenético da área, faz com que tenhamos de estar sempre a pesquisar e a estudar as técnicas que vão desde o digital até as mais tradicionais de pintura, de acordo com o que o trabalho pede e isso inevitavelmente acaba acrescentando muito ao nosso trabalho pessoal. O outro lado da moeda, e é o que me motiva a criar meus projetos paralelos (não só os do “Tape Project”), é que ao mesmo tempo que o trabalho na publicidade é divertido e criativo, também, é, muitas vezes, burocrático. Como ilustradores, não temos total liberdade. Por mais que as agências nos deem carta branca na hora de executar, e consigamos contribuir artística e tecnicamente, ele não é nos pertence, a ideia não é nossa. Continua a ser um trabalho super direcionado (formatos, cores, conceitos, prazos…) em que o grande desafio é saber traduzir da melhor maneira, através da ilustração, a ideia da agência. Daí vem essa necessidade de fazer algo mais pessoal em que eu tenha total liberdade para criar, executar e, principalmente, não ter ninguém para dizer o que e como fazer.

3) M: O “Tape Project” tem características muito autênticas. A criatividade permeia desde o conceito até os desenhos e os materiais. Conta-nos quando e como tiveste a ideia deste projeto. 

D: Há uns 15 anos, fui a uma exposição de um amigo, o grande artista Cesar Finamori. Entre seus trabalhos, tinha uma série de quadros feitos com fitas isolante que me causou uma “estranheza boa”. A simplicidade das fitas, que naquele momento me pareciam um material tão incompatível com uma obra de arte, mas que estavam ali dando formas suaves aos desenhos, deixou-me bastante impressionado. As fitas têm isso, ao mesmo tempo, o material é limpo e reto quando se vê de longe, dando a impressão de que são feitas digitalmente com vetores, quando se olha de perto causam essa surpresa de serem algo bem manual, colado, não tão reto e nem tão perfeito como os vetores do primeiro olhar. Enfim, muitos anos depois, na tentativa de fugir um pouco às regras e prazos da publicidade, lembrei-me das fitas e resolvi testar. Daí para frente tenho tentado imprimir minhas ideias através delas.

4) M: Fala-nos sobre o teu processo criativo, as tuas inspirações e principais referências.

D: Prefiro a noite para trabalhar nos quadros, sempre com música. Nesse horário, tudo flui mais facilmente, acho que a minha cabeça fica mais tranquila. Começo com um desenho de base e aí passo para a superfície que vou trabalhar (madeira, vidro, acrílico, parede…). Os temas e as ideias variam. Como ainda estou a fazer experiências, gosto de deixar tudo mais solto, sem me prender muito a um tema ou forma. As minhas referências e principais inspirações vêm das xilogravuras e das artes de cordel que dão a base ao projeto.

5) M: Como administras o teu tempo entre o trabalho, vida pessoal e a arte? 

D: O meu dia é para o estúdio de ilustração, a noite para as fitas e a minha vida pessoal corre embrenhada nesses dois mundos.

6) M: Estiveste na Índia, recentemente, e lá também realizaste trabalhos com as fitas. Fala-nos um pouco sobre esta fantástica experiência. 

D: Essa foi a segunda vez que estive lá, a primeira foi em 2014. Aquele lugar é uma loucura, difícil de descrever! É tudo muito intenso e diferente. As pessoas, sabores, cheiros, cores, animais, templos, espiritualidade... Tudo isso misturado e com uma banda sonora de buzinas de carros e motos ao fundo que não pára um só segundo, é quase um caos total. Mas que de alguma maneira, o povo consegue viver em harmonia (bem disse que não ia conseguir descrever) As pessoas, apesar de muitas vezes viverem em condições difíceis, são muito simpáticas e alegres, foi o que me motivou a fazer essa segunda viagem. Na primeira vez fiquei mais tempo em Varanasi, cidade sagrada que fica nas margens do Rio Ganges. Lá fiz meu primeiro trabalho com as fitas na rua, foi numa parede à beira do rio, uma experiência muito “bacana”. Nesta segunda viagem, tive mais tempo e como tema para os quadros usei as flores. Quis fazer um trabalho com as pessoas, que para mim são a parte mais incrível da Índia. Então, enquanto passava pelas cidades (foram 11, só de carro foram 1500 km) tentava descobrir no meio da multidão essas “flores da Índia”. No final essa, interação gerou um resultado “bacana”, fiquei muito feliz.

7) M: Já realizaste alguma exposição? Se sim quando e onde? Se não, tens intenção de fazer? 

D: No ano passado, fiz duas exposições uma em Barcelona e outra em Malmö, na Suécia. Foi minha primeira experiência a expor e foi muito bom, acho que fiquei mais à-vontade por ter sido bem longe de casa (risos), agora quero tentar organizar uma em São Paulo.

8) M: Quais os teus objetivos e planos para o “Tape Project”? 

D: O meu objetivo agora é continuar a fazer experiências, criando, e tentar manter essa liberdade de trabalhar que tenho hoje.

9) M: Consegues destacar uma obra que te orgulhas? Justifica a tua escolha. 

D: Gosto muito da Frida, acho que porque foi o primeiro trabalho em que consegui ver o grande número de possibilidades que as fitas proporcionavam e conseguir colocar na tela o que eu tinha na cabeça.

10) M: Que coisas são essenciais no teu dia-a-dia? 

D: Café.

 

11) M: Qual é o teu lema? 

D: Não tenho um lema definido, mas, para dar uma resposta, diria que é sempre tentar manter o foco, que é o mais difícil para mim, mas funciona.

12) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e a todos os seus leitores. 

D: Queria só agradecer e desejar todos sucesso para a Melancia. E para a “galera”, dizer que se têm um projeto, uma ideia ou algo que desejam realizar, o mais importante é dar o primeiro passo, porque isso ninguém pode fazer por vocês! E daí pra frente vão ter uma visão melhor do caminho.

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