Entrevista: MAFALDA JESUS

ILUSTRAÇÕES: GODMESS

GODMESS

Estivemos à conversa com Tiago Gomes, um jovem talento portuense ligado à ilustração e à street art. Atua nas ruas como GODMESS, espalhando cor, boa disposição e formas geométricas por onde passa. Começou cedo a fazer experiências em fábricas abandonadas, mas a seu tempo percebeu que isto seria a sua vida a 100%, e começou a criar o seu próprio estilo. Apesar de acharmos que a sua identidade é forte e inconfundível, afirma que é um longo processo e que lhe ainda te muito trabalho pela frente.

1) MELANCIA: Quem é o Godmess?
GODMESS: 
Hhmm... Olhem! Hoje nem sei bem... No início era como um diário, um daqueles em que nos filmes o ator desabafa todas as noites os seus melodramas e as comédias da vida e guarda religiosamente na mesinha-da-cabeceira ao lado da cama. Mas este era feito de imagens e num sentido plural, não era um diário só meu, era um diário de amigos, conhecidos e estranhos, histórias ouvidas, contadas ou mal interpretadas. Surge muitas vezes como um aglutinador, uma ponte entre o conceito e a técnica, um projeto pessoal a longo prazo, um processo de construção de identidade, sempre degrau a degrau, dando tempo a cada coisa, sem ser absorvido por ele. É muito difícil digerir dedos apontados no bem ou no mal. O Godmess será então uma aventura, um heterónimo ou um alter-ego, um ser que se alimenta da realidade, como uma capa que me deixa na penumbra e sobe ao palco para se satisfazer. Já agora! Olá eu sou o Tiago!

2) M: Como foi o teu primeiro contacto com o graffiti?  
G: Desenhar foi desde sempre uma forma de comunicação e entretenimento. No final dos anos 90, começo a ouvir os testemunhos acompanhados por fortes batimentos cardíacos e samples domésticos. O hip-hop e a sua filosofia da época fizeram todo o sentido naquele momento. Começo a desenhar as primeiras letras, a estar mais atento quando, ao domingo de manhã, visitava a baixa do Porto. Entre 2001 e 2003 conheci dois rapazes que começaram a pintar no “boom” do hip-hop nacional, acompanhados pela geração morangos com açúcar e a música dos dealema e mind da gap, mas só mais tarde ao entrar para a Soares dos Reis, um pouco mais longe do controle parental, é que comecei a frequentar as primeiras fábricas abandonadas, a fazer as primeiras maratonas noturnas e a conhecer melhor o movimento do graffiti nacional, na altura através do fotolog. A primeira vez que peguei numa lata foi com uns amigos do bairro, que já pintavam: o Wes e o Rawd e fomos a uma casa abandonada lá perto, onde passado 10 minutos fomos apanhados. “Ainda bem que os meus pais não souberam na altura, porque a minha carreira tinha começado agora e iria terminar uns minutos depois se assim fosse…” A segunda foi já na Escola Soares dos Reis, durante um workshop que tinha como orientadores o Mots e o Nitro dos Maniaks, grandes referências, e onde pintaram também outros writters que estudavam na Escola ainda na Rua Firmeza no Porto. Na semana a seguir ao workshop, o Bent e o Kyote que eram da minha turma, levaram-me a pintar a uma fábrica em Gaia e aí, mais à seria, fomos ao Dexa comprar latas com os mesmos tons, fizemos um projeto comum, combinámos os estilos, tudo como manda a lei, e assim foi o início. Um início muito curto na verdade, porque passado uns tempos conheço o Kino e ele dá-me a conhecer nomes como o Banksy, Os Gémeos e Blu e aí a perspectiva sobre o que eu queria fazer dá uma volta de 180º graus, e a Street Art começa a tomar uma posição bidimensional, ocupando 100% da minha vida. Hoje produzo mas ao mesmo tempo sou também um consumidor.

3) M: Tens um estilo muito próprio. Qual é o segredo para conseguir criar uma identidade tão forte? 

G: Não acho que o estilo visual e mesmo a identidade conceptual do meu trabalho seja ainda muito próprio, acho que isso é um processo muito difícil e ainda vai requerer muitos anos de trabalho pela frente. Mas para chegar a este ponto foi muito importante, em primeiro lugar, conhecer ao máximo o que está a minha volta, depois recuar às origens e a seguir tentar perspetivar o futuro. Algumas características do meu trabalho foram evoluindo e sofrendo mutações ao longo destes anos, muito devido ao amadurecimento enquanto pessoa e artista, mas muito também devido ao conhecimento do outro. Não vivemos sozinhos no mundo, a vida tem várias perspetivas tal como a arte, e por vezes as suas definições nos livros certos trazem escrito coisas erradas, e nos livros errados trazem em si coisas certas. Para perceber isto comecei pelo início usando cores opacas e formas simples. Por exemplo, o vermelho surgiu como uma forma de afirmação, na natureza só é encontrado em momentos e lugares específicos e por norma não é uma cor predominante. Traz associado definições extremas na sua simbologia. Perceber a pluralidade das coisas é ser capaz de absorver e digerir múltiplas perspectivas sobre o mesmo assunto e assim formar uma opinião sobre ele mas nunca tomar isso como certeza é meio caminho andado para o sucesso! Ou não!

4) M: O que te inspira? 

G: Tento estar sempre atento a tudo o que se passa à minha volta, para poder vivenciar as coisas sempre da melhor maneira possível ou da forma que o meu ser me permite. As pessoas, geralmente aquelas que me estão mais próximas, são a fonte onde vou buscar mais informação para conseguir criar, mas as temáticas podem variar tendo em conta o que se sobrepõe no momento de criação.

5) M: O teu trabalho também é feito de improviso ou é sempre previamente estudado e pensado? Conta-nos como se desenrola o teu processo criativo. 

G: A inspiração pode vir de muitos lados, mas para mim nunca caiu do céu ou veio na brisa do mar. O meu background em design gráfico desde cedo que me fez perceber que o trabalho é essencial para chegar mais próximo do sucesso. Basicamente pensar, pensar, pensar, pensar, pensar (…) ideia 1, ideia 2, esboçar uma vez, esboçar duas. Está ok! Vamos lá! Está quase! OK! Voltamos à primeira… Geralmente, no momento de criação o pensamento está sempre muito bem estruturado, mas surgem sempre obstáculos. Como faço street art, o meu maior problema é aquele rapaz dos posters que resolveu colar, hoje à tarde, a cara do Anselmo, com a informação de mais um dos seus concertos, na parede que eu já andava a namorar há uma data de dias, obrigando-me muitas vezes a tomar opções de última hora. O improviso é sempre necessário, em todas as ocasiões, 5 cm pra o lado, hoje fica um bocadinho torto porque o carro patrulha parou para nos dar as boas noites… entre outras coisas.

6) M: Na tua opinião, qual o papel que a street art desempenha no espaço público e para a sociedade? 

G: A Street Art na minha perspetiva, é de certa forma já por si um espaço de criação multidisciplinar, logo todos os seus conceitos e suportes podem ser os mais variados possíveis. Isto inclui todos os personagens que intervêm, temos artistas que são pintores ou designers, arquitetos e engenheiros, estudantes que ficaram pelo secundário, outros doutorados, padeiros, músicos, empregados e patrões, homens e mulheres, novos e velhos, não existe um padrão definido e esta diversidade de que é feita a street art, consegue facilmente abraçar todo o tipo de público, com temáticas e imagens que lhes são próximas e desfez por completo esta visão banal contemporânea que foi criada de uma Arte inacessível. A Street Art é um meio de comunicação, tal como a arte, mas mais popular porque está mais próximo das pessoas. Não precisamos de visitar museus ou entrar em galerias para ver, ouvir, sentir a mensagem. As ruas até hoje e desde de sempre, são um lugar de vida, de movimento, de trocas, de ligações… São como a energia que liga as televisões, os rádios, os computadores e sem elas a street art passaria a ser apenas arte. Mas assim fica a ser o movimento artístico mais fascinante da história da arte até hoje!

7) M: Que noção é que um artista nunca deve perder? 

G: Quem é, onde está, com quem está e onde quer chegar! Podemos percorrer uma distância entre dois pontos das mais diversas maneiras, mas a maneira como chegamos lá vai alterar completamente a percepção que temos desse ponto.

8) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

G: Para que os leitores fiquem a saber, o sumo desta MELANCIA é muito saboroso, também tem vitamina C, é rica em potássio, cultura, arte e magnésio e não tem açucares adicionados. Logo, no final vão-se sentir satisfeitos com aquele sabor fresco a novidades e a verão. Para os MELANCIEIROS continuem a MELANCIAR estão a fazer um ótimo trabalho e que queiram sempre mais e melhor. Quanto ao Godmess podem continuar a acompanhar o trabalho nas redes sociais, no facebook, no instagram e quem sabe um dia destes numa parede mais perto de vocês. Obrigado.

www.facebook.com/godmessbook

espreita o artigo na revista

CONTACTos

  • ig
  • fb
  • yt

MELANCIA MAG 2018 © ALL RIGHTS RESERVED

Melancia_Icon.png