crochet & intervenções urbanas

Entrevista: JULIANA LIMA

13

POMPONS

Letícia Matos, 40 anos, é engenheira civil de formação. Entretanto, descobriu nas artes manuais a sua paixão e fez disso a sua profissão. Não perca a entrevista com esta artista brasileira que espalha a sua alegria de viver pelas ruas de muitos cantos do mundo em forma de pompons. Árvores, postes e até sem-abrigos ganham mais cor e vida pelas mãos dela! Toma como exemplo e contagia-te com toda esta felicidade!

1) MELANCIA: Quem é a Letícia Matos?
LETÍCIA: 
Sou péssima a falar de mim. Mas eu considero-me uma pessoa teimosa, insistente, disciplinada, corajosa e chata. [risos]

2) M: Em que momento percebeste que as artes manuais, ou seja, o tricot e o crochet, faziam parte de ti?
L: Eu aprendi a tricotar bem nova, com a minha mãe, quando tinha uns 7/8 anos. Sempre gostei muito das coisas manuais. Lembro-me de brincar muito com dobraduras, desenhos, colagens. Brincava com bonecas de papel, e fazia a casa delas com cartolina e inventava novas roupas, usando imagens de revistas como estampa... quando era adolescente, eu fazia crochet com uma amiga, e vendíamos umas faixinhas de cabelo e até umas saias, para saída de praia. Há vários episódios em que lembro de ter sempre perto de mim as manualidades. Mas foi há um pouco mais de quatro anos, quando comecei as intervenções, que percebi que poderia dar vazão a minha criatividade através dessas técnicas.

3) M: Sabemos que o projeto “13 Pompons” se iniciou em 2012. Quando decidiste ensinar algumas amigas a fazer tricot e pompons, e, juntas levaram o resultado dos 13 pompons coloridos em lã para uma árvore em São Paulo. Com o entusiasmo desta ação, decidiste realizar uma intervenção por dia, até ao dia de teu aniversário, que coincidentemente, eram 13 dias. Conta-nos como esta experiência inicial de intervenção urbana mudou a tua vida.

L: Aaahhhh, foi muito legal. A partir dessa primeira intervenção com as amigas, eu fiquei procurando umas referências de pompons coloridos, para fazer alguns diferentes. As tramas eram pequenas, só o suficiente para prender os 13 pompons. Essa experiência foi ótima, pois eu fazia a intervenção, pensando em dá-la de presente a um amigo. Então a decisão das cores, do local, era sempre tendo em mente a pessoa que seria homenageada. Foi aí que percebi como uma ação tão simples deixava meus amigos felizes pela lembrança. Além de colocar um pouco de cor nas ruas, para aqueles que passavam, tinha esse outro lado, de lembrar e dedicar algo feito por mim aos meus amigos. Acho que por isso decidi continuar a fazer as intervenções. Eu nem tinha ideia de que já existia esse movimento “yarnbombing” [um movimento criado por fãs do crochet e tricot que consiste em decorar cidades com peças feitas com estas técnicas e assim trazer mais cor e alegria a estes locais] foi só depois de fazer algumas intervenções que alguns amigos começaram a mandar-me links de outras pessoas que também faziam isso.

4) M: Apesar da tua arte não ser apenas os pompons, eles viraram a tua marca registada. Fala-nos sobre este belo e delicado diferencial.

L: É verdade. Não é só o pompom, mas quando alguém me reconhece pelo trabalho sempre fala: “ah, você é aquela dos pompons”. [risos]. Mas não foi nada propositado, nem sei explicar. Lembro-me de que há uns 11/12 anos eu fazia uns cachecóis de pompom e dava de presente para as minhas amigas (quando eu ainda morava em Porto Alegre, Brasil). Eu adoro pompons, acho fofo, e na rua tem a coisa do toque, das pessoas quererem tocar porque é fofo, no meio de tanta coisa dura e cinzenta. Mas só fui percebendo com o tempo. Não pensei nisso antes de começar a fazer as intervenções.

5) M: Já coloriste árvores, postes e orelhões [cabines telefónicas] em muitos cantos do Brasil, como em São Paulo, Brumadinho (Museu Inhotim), Porto Alegre, Paraty, Belo Horizonte, Goiânia e já andaste a viajar e a espalhar tua arte por outras partes do mundo, como em Mendonza e Buenos Aires, na Argentina. Qual é a essência das intervenções e a tua principal motivação?

L: Acho que a essência das intervenções já contei um pouco nas questões acima :) Eu motivo-me muito quando vou viajar, conhecer lugares, pessoas, essa é a forma que encontrei de interagir por aí. Colocar um pouco de poesia no dia-adia das pessoas, ver como elas reagem, talvez até estimulá-las a contribuírem com esse movimento de fazer algo pela cidade, pelos outros. Claro que o que precisamos é muito mais do que isso, mas acredito que a intenção e a ação possam fazer-nos refletir mais sobre como agimos com quem está ao nosso redor, como cuidamos de nós, da nossa casa, da nossa cidade. Enfim, acho que é um ponto de partida para nos tornarmos mais cidadãos, mais gentis...

6) M: Destaca um trabalho teu que te orgulhas e diz-nos porquê. 

L: Aaaahhhhh, sem falsa modéstia, eu orgulho-me sempre dos projetos em que participo, eu faço-os com tanta dedicação e tanto carinho encho sempre o meu coração de alegria com as coisas que realizo. Fiquei muito feliz de realizar o meu sonho de ir para Nova Iorque fazer intervenções. Fiz um trabalho em fevereiro, no Rio, que foram 14 árvores no mesmo quarteirão, e ficou muito, muito lindo passar por uma rua com todas as árvores crochetadas. Também tenho participado num projeto chamado “Cidade Escola-aprendiz”, dando oficinas a crianças imigrantes, trabalhando com a memória associada à manualidade.

7) M: O teu projeto “13 pompons” nasceu das intervenções urbanas. Na tua opinião, qual é o papel deste tipo de arte na comunidade? 

L: Acho que é estimular as pessoas, mostrando que através de ações simples podemos cuidar das nossas ruas, cidades, e pensar em quem passa por elas, deixando o seu dia mais feliz.

8) M: Já participaste em algumas exposições coletivas, como a homenagem ao falecido piloto brasileiro de Fórmula 1, Ayrton Senna. Fala-nos sobre estas experiências.

L: Foi “muito bacana”, participar nessa exposição. Vários artistas transformaram um capacete para homenagear Senna. Eu enchi-o com pompons, queria algo que valorizasse o capacete, que o tornasse ainda maior, já que o que vemos do piloto quando ele está correndo é o capacete. Além disso, fiz uma trama para colocar no totem onde ficava o capacete. Fiquei muito feliz por participar nesta exposição que foi levada para diversas cidades do Brasil e homenagear alguém tão “guerreiro e vencedor”.

9) M: Com o sucesso e repercussão do teu trabalho artístico, foste convidada para anúncios publicitários e projetos de grandes marcas como O Boticário e a Coca-Cola. Como te sentes em relação a isto? 

L: Acho que é uma consequência das minhas ações. No caso da Coca-Cola, acredito que eles quiseram agregar a arte de rua ao futebol. No d’ O Boticário havia a questão de espalhar algo “bacana” por aí. O título era “mulheres que perfumam”. E é isso que eu faço, não é? [risos] Mas o que é bom nessa visibilidade é estimular as pessoas que tem uma ideia guardada, um talento escondido, a começarem a fazer algo, dar vazão aos seus projetos pessoais.

10) M: Que noção é que um artista nunca deve perder? 

L: Os seus valores, as suas intenções. Como e por que tudo começou. Manter essa chama, essa dedicação sempre.

11) M: Qual é o teu lema? 

L: Há algo que eu digo sempre: não gosto de passar vontade. Faço tudo de acordo com a minha vontade, na hora que quero e como quero, mas não é uma questão material, ok? Nada do estilo “quero comprar isso agora”. Não! Nada disso! E em relação ao que tenho vontade de fazer, se quero passar o dia a fazer crochê, se quero acordar cedo ou tarde, se quero participar ou não num projeto, se quero estar ou não próxima de determinada pessoa, essas coisas.

12) M: Que projetos vêm aí? 

L: Olha... com essa crise, a coisa está a ir um pouco devagar. Ainda mais nestas horas aparece muita gente a querer o seu trabalho em troca de divulgação, e divulgação não paga contas... [risos] Brincadeira, por enquanto tenho previsão de alguns cursos, algumas parcerias para produtos e, tenho a certeza de que, em breve, aparecerá algum projeto “bacana”.

13) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag e aos seus leitores. 

L: A gente tem de acreditar nos nossos sonhos e correr atrás deles, fazer o que nos faz feliz. Vale mais a pena ser feliz do que preocuparmo-nos em ganhar muito dinheiro, mas é preciso ser forte para manter esse ideal, porque momentos difíceis sempre acontece, e é nessas horas que temos que ter bem claro “O QUE?” é que nos faz feliz!

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