Entrevista: JULIANA LIMA

ILUSTRAÇÕES: ANTÔNIO NETO

MENINO

NETO

Ilustrador e Designer, Antônio Belchior Neto tem 31 anos, mas não é por acaso que é conhecido como Menino Neto. Tive o prazer de trabalhar com ele e por isso posso afirmar a pés juntos que, para além do talento e da responsabilidade, Neto é parceiro. A sua maneira leve de lidar com as situações e o seu bom humor lembra mesmo o jeito doce de uma criança, de um bom menino. Neste bate-papo, afinal estou a entrevistar um grande amigo, António conta-nos sobre a sua infância, de quando desenhava com o seu pai durante o jantar. Hoje, anos depois e com uma carreira profissional incrível, apresenta um portfólio completo nas várias vertentes do Design Gráfico, como: ilustrações, criação de estampas, desenvolvimento de identidade visual e direção de arte.

1) MELANCIA: Descreve-te numa frase.
ANTÔNIO: 
Acho que é a primeira vez que faço isso. Que difícil né? Vamos lá! Tenho muito orgulho das minhas origens e sempre batalhei atrás dos meus sonhos e objetivos.

2) M: Como o teu gosto pela arte e pelo design começaram?
A: Quando era criança, lembro-me nitidamente de momentos em que desenhava com o meu pai antes do jantar. Mesmo cansado de um dia duro de trabalho, ele ficava horas comigo rabiscando e eu tentando reproduzir seu traço. Esse traço foi aprimorando com os anos e, olhando um guia de profissões descobri o design gráfico. Em 2004 eu entrei na UNESP e com 17/18 anos fui morar em Bauru no interior de São Paulo. O interessante do núcleo universitário de lá é que a maioria dos estudantes, assim como eu, são de outras cidades. Eu sempre morei em república de estudantes e convivia com alunos, ex-alunos e professores de design, relações públicas, artes, jornalismo, arquitetura, etc, quase 24 horas por dia.

3) M: Das tuas especialidades (identidade, ilustração, impresso, estampas, fashion entre outras) de qual gostas mais? Porquê? 

A: Eu sempre me preocupei em me tornar um profissional cada vez mais completo e trabalhei em várias vertentes do design. Atualmente o que me deixa mais feliz é trabalhar como diretor de arte. São projetos que eu consigo explorar todas as especialidades que adquiri e trazer outros profissionais que gosto e que contribuirão para um determinado trabalho.

4) M: Sabemos que também cria alguns personagens como o divertido James Brownie. De onde vem as tuas ideias para este tipo de criação? 

A: Desenhar personagens foi algo que surgiu em Bauru em 2006. Dois amigos e eu montamos um coletivo de design e ilustração chamado “Deusmoleque”. Éramos fans de projetos como o Pictoplasma da Alemanha, o coletivo Friends With You, estúdio Mopa de Brasília, o site de batalha de personagens Mojizu, entre outros. Foi uma época em que a toy art estava bombando em todos os eventos de design que íamos. Foi a época em que mais ilustrei. As ideias surgiam de papos aleatórios onde riamos e tomávamos cerveja na sala de casa.

5) M: Quantos anos de carreira tens? Destaca as principais atividades profissionais deste teu percurso. 

A: Aproximadamente 10 anos. Formei-me em 2008 mas trabalho na área desde 2006. Logo quando recebi o diploma cai de para-quedas na moda indo trabalhar na equipe de criação da Osklen no Rio de Janeiro. Mal sabia me vestir e não fazia ideia do que era a marca. Foi uma ruptura muito grande sair de uma cidade pacata e amistosa para uma cidade caótica como o Rio. Com o tempo me acostumei, fiz amigos muito importantes e desenvolvi trabalhos que tenho muito orgulho. Em 2011 mudei para São Paulo onde pude trabalhar com projetos de embalagem e identidade visual na Interbrand (consultoria internacional de branding). O trabalho na maioria das vezes não era tão criativo como trabalhar com estamparia e design gráfico pra moda mas eram extremamente completos e me trouxeram uma forte experiência em gestão, didática e organização. Em 2012 tive a primeira experiência em uma agência de publicidade. Fui diretor de arte por três anos na Almap BBDO que é uma das maiores agências do mundo. Trabalho com eles em projetos pontuais até hoje e o resultado das campanhas é sempre incrível. Atualmente tenho uma empresa onde faço alguns trabalhos de design e direção de arte e sou responsável pela linha de camisetas masculinas da marca Ellus Second Floor.

6) M: Consegues eleger um trabalho teu que te orgulhas? 

A: Difícil escolher mas acho que os primeiros são os que mais marcam. Foi no primeiro desfile da New Order em 2010, que era a marca de acessórios da Osklen. Ver a modelo entrando na passarela com a minha estampa e a repercussão da coleção na imprensa me deixou muito feliz. É um dos trabalhos que mais gosto, uma ideia simples, de fácil entendimento e com bastante personalidade.

7) M: De maneira geral, como funciona o teu processo criativo? 

A: Um dos maiores problemas da nossa profissão é que é muito difícil desligar a cabeça quando se está tocando um projeto. As vezes uma boa ideia surge quando menos se espera. No banho, em casa, no bar, no metro, etc. Gosto de rabiscar e escrever através de esquemas, onde faço uma espécie de narrativa visual. Assim consigo me organizar e não perder a linha de raciocínio. Acredito que o racional e o experimental devem caminhar juntos no tipo de trabalho que faço. Lido com prazos apertados e muita expectativa. Então é importante se organizar.

8) M: Quais são as tuas principais referências artísticas e as tuas inspirações? 

A: A fotografia de moda é algo que eu me apaixono cada vez mais. Gosto muito de fotógrafos como Peter Lindberg, Steve Meisel e Mert and Marcus. Acompanhando o raciocínio, o diretor de arte Fabien Baron é um dos mais incríveis pra mim. Em ilustração eu tenho gostado de traços mais simples e marcantes como os clássicos cartazes Cubanos. Desenhos simples, feitos e impressos manualmente e que possuem uma personalidade incrível. As minhas inspirações vêm de tudo o que já vivi, das minhas viagens, livros, filmes, dos amigos que admiro e da música. Acredito que cada som pode te trazer perceções diferentes em um processo criativo. Confesso que não tenho muito preconceito, vou do rock clássico ao funk carioca sem problema nenhum.

9) M: Se tiveres algum artista que você admira muito, diga-nos quem é e porquê. 

A: Escher e Salvador Dali são artistas que instigam a percepção humana. Eles conseguem tocar as pessoas independente do seu nível de conhecimento em arte. Tive a oportunidade de ver suas obras de perto e é chocante a qualidade do traço e a quantidade de detalhes.

10) M: Qual o teu lema de vida? 

A: A vida é dura para quem é mole.

11) M: O que esperas para o teu futuro? 

A: Evoluir sempre, montar meu escritório de design e poder compartilhar com outras pessoas o que aprendi nesses anos.

11) M: Deixa uma mensagem à MELANCIA mag o os leitores. 

A: Difícil, mas ou mesmo tempo um grande prazer. Visualizei toda a minha carreira em alguns minutos e sou muito feliz por todas as experiências que tive. Espero que gostem e se quiserem conversar mais, é só chamar. Abs!

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