PINTURA e street art

Entrevista: JULIANA LIMA

PAULO

ARRAIANO

Já me tinha cruzado com a obra do Paulo pelas paredes e ruas de Cascais. De certa forma, já o conhecia. Mas, o acaso da vida e o meu interesse pelo assunto, levaram-me para uma sala

de aula onde era ele o formador. Grande sorte! De aulas pouco convencionais sobre cultura visual e arte urbana, o Paulo inspirou e partilhou conhecimento sobre processo criativo. Agora, fora das aulas, surgiu a vontade de saber mais sobre a sua carreira, sobre as suas inspirações artísticas e acima de tudo sobre o Paulo como pessoa. E é disso tudo que esta entrevista trata. Vamos lá!

1) MELANCIA: Como surgiu a sua decisão de seguir a carreira artística e ter um projeto autoral?
PAULO: 
O facto de trabalhar profissionalmente como artista plástico não foi totalmente uma decisão planeada de raiz, surgiu de uma forma bastante orgânica. A minha formação foi em Comunicação e segui a vertente de Design e Direcção de Arte, passei por alguns estúdios e trabalhei algum tempo como Art Director e Designer em algumas publicações ligadas à moda, cultura e desenhei como freelancer para marcas como Nike, Carhartt, entre outras. Contudo, a vertente comercial deixou de me fazer sentido e, visto que paralelamente ao meu percurso profissional já desenhava e pintava, todo este processo acabou por tomar conta sobrepondo-se ao meu trabalho numa vertente comercial.

 

Durante um período da minha carreira parei totalmente e estudei áreas como movimento, dança, shiatsu, medicina tradicional chinesa, assuntos que me interessavam de um ponto de vista pessoal e que mais tarde acabaram por se correlacionar com o meu corpo de trabalho. Estes acabam por se reflectir no meu processo de pintura que está muito próximo do “action painting” e de uma componente bastante ligada a aspectos da performance e do trabalho de corpo/movimento.

 

A interacção com o espaço público, foi e tem sido uma componente importante e presente no meu percurso, pois a escala está directamente ligada ao movimento e ao corpo, embora nunca me sentisse parte da street art ou qualquer movimento especifico, o meu de trabalho, o qual desenvolvi em inúmeros países paralelamente ao trabalho dentro de espaços de galeria ou museológicos, funcionava nestes locais como um processo de “acupuntura urbana” que se correlaciona directamente com o trabalho apresentado em espaços formais para a arte contemporânea.

 

No fundo todo o meu processo como artista plástico, como referi anteriormente, tem evoluído de uma forma extremamente orgânico, que está por sua vez ligado directamente com o trabalho apresentado nas próprias peças ou suportes que utilizo.

2) M: Como é ter o seu estúdio na Cidadela Art District?

P: Eu vivo em Cascais e ter um espaço no Art District tem sido bastante interessante pois permite-me fazer praticamente tudo a pé e tirar partido do local, rodeado por mar, serra e espaço urbano que são todos os aspectos que se correlacionam directamente com o meu corpo de trabalho, toda esta dualidade espaço urbano/espaço natural tão perto e interligado é para mim um objecto de estudo constate. Para além disso, o Art District é também um espaço onde surge um contacto directo com outros artistas, colecionadores ou agentes que se relacionam directamente com o mundo da arte contemporânea o que permite o desenvolvimento de projectos e uma partilha directa de ideias, criticas e processos criativos.

3) M: Se possível, descreva-nos como é um dia normal de trabalho lá.

P: Nunca existe um dia igual ou outro, tudo depende diretamente do projecto, ou fase do processo de trabalho em que nos encontramos. Existem dias de pesquisa e investigação ou trabalho mais burocrático, como dias que são dedicados exclusivamente à produção. No meu trabalho diário como artista plástico, é bastante difícil descrever qualquer tipo de rotina, pois apesar de existirem métodos de trabalho específicos sendo a pintura, video ou escultura as âncoras de todo o processo, existem inúmeras outros elementos que ditam o desenrolar do processo. Inúmeras viagens, reuniões, pesquisa, etc. que influencia o dia a dia e qualquer tipo de rotina.

4) M: Sabemos que a prática do Skate/Surf, desde a sua adolescência, e os seus gostos musicais influenciaram muito os seus trabalhos e a sua forma de ser. Fale-nos mais sobre isso.

P: Eu cresci rodeado de uma cultura ligada ao Surf e Skate e onde a música esteve sempre presente. Todos os meus amigos tocavam em bandas e toda esta cultura “lowborow” me influenciou bastante. Também rodeado de discos e capas de vinyl em casa, que foram as minhas primeiras influências de cultura visual. Logo inevitavelmente todo o inicio da minha carreira profissional se iniciou a desenhar para música, ou roupa ligada a toda esta subcultura.

5) M: Como descreveria, de forma breve, o seu processo de formação e percurso profissional?

P: Iniciei os meus estudos em Letras e Filosofia, licenciei-me em comunicação e estudei na ArCo em desenho, mais tarde fui fazendo algumas formações em áreas mais técnicas como serigrafia. gravura... e inúmeras residências artísticas nacionais e internacionais dentro da área onde pesquisei sobre inúmeros processos ligados á pintura, criação de pigmento naturais, desenvolvimento de diferentes técnicas e metodologias sempre relacionadas com áreas entre a pintura, corpo e movimento.

6) M: Uma vez, numa das nossas conversas informais, o Paulo falou sobre a influência que Cascais, considerada por si a Califórnia Portuguesa, teve na sua formação. Conte-nos um pouquinho sobre isso.

P: Sim, penso que existiu uma influência enorme na minha adolescência o facto de crescer ao lado do mar e serra, e toda uma cultura de praia que influenciava estilos, moda, música e as relações humanas e sociais. Existia uma Sala de Concertos bastante importante onde passaram toas as bandas influentes da minha adolescência ligadas ao Punk, Rock, Grunge e Heavy Metal (Nirvana, Pil (Ex-Sex Pistols), Pearl Jam, Iron, Maiden, Slayer, ...) contrastado com a energia da praia Surf e Reggae ou Jazz. Tudo isto associado a desportos como o Surf ou Skate e influência norte americana da cultura DogTown criou uma influência direta em todo o conteúdo visual que consumia e me rodeava.

7) M: Há quanto tempo dá aulas e o que o motivou a passar os seus conhecimentos para pessoas que se interessam por assuntos que você domina?

P: Penso que já dou aulas há cerca de 8 anos embora seja apenas um mês por ano bastante compactado pois o facto de viajar constantemente devido a exposições ou projectos “site specific” não me permite estar parado no mesmo local muito tempo. E, mais uma vez foi bastante orgânico e fluída a forma como tudo surgiu. começou pro um processo de dar alguns “talks” ou conferencias e posteriormente ser convidado a dar aulas que se relacionassem com Cultura Visual Urbana ou processos relacionados directamente com o meu trabalho.

8) M: Como prepara o conteúdo das suas aulas? Conte-nos um pouco sobre a experiência de ser formador.

P: As aulas são adaptadas a cada grupo / indivíduo, não funciono com conteúdos programáticos embora todo o corpo de trabalho tenha um esqueleto prévio e uma linha condutora mas que por sua vez se vai reorganizando e adaptando organicamente ao grupo e às pessoas que por sua vez tem graus de aprendizagem, interesses e objectivos diferentes, mais uma vez muito idêntico ao meu processo de trabalho.

9) M: E a sua atual relação com o design gráfico?

P:  Acho que hoje em dia não existe ser artista em Portugal, mas qualquer artista tem, inevitavelmente, de ter uma visão Internacional do seu percurso e trabalho. Portugal é um pais pequeno e que esteve muitos anos isolado à cultura internacional, o que dificulta ainda muito todo o mercado da arte contemporânea nacional, criando ainda um padrão muito institucional e um “gap” bastante grande ao circuito comercial internacional vs nacional no mercado de arte contemporânea. Na minha opinião existe ainda um provincianismo muito presente e uma necessidade de educação cultural muito presente na nossa sociedade. O sistema precisa de alguma frescura e de criar novas plataformas culturais, repensar as galerias e criar interesse a novos colecionadores para que toda máquina evolua organicamente e possa existir lugar para novos artistas poderem viver do seu trabalho e estarem no mesmo “playground” que os outros artistas internacionais.

10) M: Como é ser artista em Portugal? Tem algum recado para quem está a começar ou interesse por seguir este caminho?

P: Acho que hoje em dia não existe ser artista em Portugal, mas qualquer artista tem, inevitavelmente, de ter uma visão Internacional do seu percurso e trabalho. Portugal é um pais pequeno e que esteve muitos anos isolado à cultura internacional, o que dificulta ainda muito todo o mercado da arte contemporânea nacional, criando ainda um padrão muito institucional e um “gap” bastante grande ao circuito comercial internacional vs nacional no mercado de arte contemporânea. Na minha opinião existe ainda um provincianismo muito presente e uma necessidade de educação cultural muito presente na nossa sociedade. O sistema precisa de alguma frescura e de criar novas plataformas culturais, repensar as galerias e criar interesse a novos colecionadores para que toda máquina evolua organicamente e possa existir lugar para novos artistas poderem viver do seu trabalho e estarem no mesmo “playground” que os outros artistas internacionais.

11) M: Sabemos que viaja em trabalho e participa em exposições fora do pais muitas vezes. Aliás, esteve no Brasil este ano, certo? Conte-nos um pouquinho destas experiências internacionais.

P:  Sim, a viagem faz inevitavelmente parte do processo. Já tive exposições ou projectos “site specific” em países como Suécia, Inglaterra, Uk, Alemanha, USA, Brasil, Japão, Tunísia, Entre outros... E, cada país é sempre uma experiência diferente, culturalmente, socialmente e no que diz respeito a processos de metodologias de trabalho. É difícil descrever algo específico,

pois cada uma das experiências foi diferente e surgiram diferentes resultados e desafios.

No caso do Brasil, foi através da curadoria do Artista Antonio Bokel e da Galeria Graphos que me foi feito o convite para expor no Rio de Janeiro. O artista Antonio Bokel, com o qual fiz uma residência artística numa antiga prisão política e com o qual me relacionei bastante bem, criou um projecto chamado Atemporal, que seria um projecto de curadoria entre artistas de diferentes nacionalidades com um corpo de trabalho que se relaciona e com objectivos comuns que já tinha tido algumas exposições em diferentes espaços e galerias.

 

Este ano o Antonio decidiu lançar um livro e criar duas exposições colectivas, uma um “Site Specific” num armazém na Lapa no Rio de Janeiro, criando uma interacção directa entre a exposição e a comunidade local e outra na Galeria Grafos também no Rio de Janeiro, espaço este mais formal. Eu fui convidado para expôr em ambas e fazer parte do livro e juntos temos dado continuidade ao projecto Atemporal aqui em Portugal, e em colaboração com o Cidadela Art District foram já feitas as residências dos artistas Heberth Sobral e Guilherme Augusto Gafi que estiveram cá em residência e expuseram os seus trabalhos.

12) M: Se pudesse escolher qualquer outro lugar do mundo para viver, qual seria? E porquê?

P: Não sei mas relaciono-me muito com a Ásia, acho que seria sempre entre Europa-Ásia, não me consigo imaginar num local apenas com um mundo tão grande e tão interessante.

13) M: Deixe um recado à MELANCIA mag e aos seus leitores

P: Agradeço ao projecto todo o interesse e divulgação do meu trabalho e agradeço a iniciativa de criar plataformas de divulgação e discussão de cultura e arte em Portugal.

www.pauloarraiano.com

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